Minerva Magazine
Como os Militares Estão Envolvidos na Política Brasileira – Podcast Não Ficção com Piero Leirner
O episódio do podcast Não Ficção traz uma conversa aprofundada entre o apresentador e o antropólogo Piero Leirner sobre o envolvimento histórico e contemporâneo dos militares brasileiros na política, abordando desde golpes tradicionais até operações psicológicas sofisticadas em redes sociais. Leirner argumenta que a participação militar na política nunca foi nova, mas que as ferramentas digitais transformaram radicalmente a capacidade de influência camuflada. O episódio também explora conexões entre inteligência militar, grandes empresas de tecnologia, guerra híbrida e a pandemia de COVID-19, culminando em reflexões sobre o que o cidadão pode fazer em um ano eleitoral.
Assistir no YouTubeCapítulos
O apresentador abre o episódio destacando que o início de 2026 trouxe um marco histórico: figuras militares de alta patente foram condenadas no Brasil por envolvimento em atividades contra a democracia. Ele ressalta que, embora seja inédita enquanto reconhecimento formal e judicial, a participação militar na política brasileira está longe de ser novidade. A questão central que ele propõe não é apenas 'por que isso aconteceu agora', mas sim se as condenações resolvem o problema de fato ou se funcionam como 'bois de piranha', sacrificando alguns para proteger uma estrutura muito maior e muito mais enraizada. O apresentador menciona conversas anteriores no canal com outros especialistas — como Sidney Chalhoub — sobre episódios históricos de enfraquecimento democrático no Brasil, criando um contexto de longa duração para a discussão que virá.
O convidado é Piero Leirner, antropólogo com doutorado em Antropologia Social pela USP e professor titular do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar, onde desenvolve pesquisas com apoio do CNPq sobre militares e temas ligados à guerra. Ele é autor de obras como 'O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida' e 'Dois Ensaios sobre Magia Política'. A escolha do convidado é deliberada: Leirner não é apenas um observador externo dos militares — ele os estuda sistematicamente há décadas, com método antropológico e acesso a fontes primárias. O apresentador declara que esta é uma conversa que queria ter há anos, e que ela se torna mais urgente e não menos, o que por si só já é um sinal do grau de envolvimento persistente que o episódio irá explorar.
O apresentador, assumindo sua posição de leigo, apresenta sua hipótese inicial: a participação política dos militares não é uma novidade histórica. O que mudaria seria o grau de descuido com que as ações foram conduzidas mais recentemente — como se os envolvidos tivessem tanta certeza de que haveria impunidade ('a pizza ia ser grande') que não se preocuparam em ser discretos. Ele traça um paralelo com declarações recentes de Donald Trump nos EUA, que também pareceriam de alguém que não teme consequências eleitorais futuras. Essa hipótese — a de que o problema não é novo, mas a exposição sim — serve como ponto de partida para que Leirner desenvolva uma análise estrutural muito mais complexa sobre como o envolvimento militar opera e como foi transformado ao longo do tempo.
Em determinado momento do diálogo, o apresentador menciona explicitamente o plano que veio a público envolvendo o assassinato de um ministro e de um ex-presidente, entre outras figuras. Esse dado não é tratado como sensacionalismo, mas como evidência concreta do nível de comprometimento institucional com ações violentas e antidemocráticas. A menção serve para ancorar a conversa em fatos documentados e condenados judicialmente, impedindo que a análise derive para especulação. Leirner, a partir desse ponto, aprofunda a análise sobre como esse tipo de ação se encaixa em um padrão mais amplo de operações que combinam elementos militares, políticos e midiáticos.
O debate avança para os acampamentos que ocorreram em frente a quartéis após a eleição de 2022. O apresentador menciona declarações de pessoas que estavam acampadas e que afirmam não ter recebido orientação explícita para ir embora nem para permanecer — o que levanta a questão sobre o grau de coordenação dessas manifestações. Leirner contextualiza que o Brasil tem séculos de histórico de mobilização aparentemente espontânea que, na prática, é alimentada ou facilitada por agentes institucionais. A menção ao uso de um trator para 'fazer terraplanagem e dar um bom alojamento' é destacada como exemplo da ambiguidade calculada: ações que parecem individuais e até banais, mas que inseridas no contexto geral compõem uma estratégia. A antropologia militar, nesse ponto, oferece ferramentas para ver padrões onde a análise pontual vê apenas incidentes isolados.
Um dos momentos mais ricos da conversa é a análise do apresentador — referendada implicitamente por Leirner — sobre o papel do Exército brasileiro na distribuição de cloroquina durante a pandemia. O apresentador desconstrói a lógica da operação: independentemente de qualquer crença genuína na eficácia do medicamento, desviar sua produção para controle do Exército e torná-lo o agente distribuidor servia a um objetivo muito maior. Se a cloroquina tivesse funcionado, o resultado narrativo seria 'o Exército Brasileiro salvou o Brasil'. Isso deslocaria a credibilidade pública das instituições de ciência, pesquisa e saúde pública — Fiocruz, Butantan, Anvisa, universidades, SUS — para as Forças Armadas. Em outras palavras, o que estava em jogo não era apenas um medicamento, mas qual instituição teria o monopólio da confiança pública em crises futuras. O apresentador menciona ter conversado com a pesquisadora Daisy Ventura sobre este tema anteriormente, e que sua análise do período 2020 era de cautela, não de rejeição imediata — o que torna sua leitura retrospectiva ainda mais significativa.
O apresentador sintetiza um ponto-chave que emerge da conversa com Leirner: a lição aprendida pelos militares com a experiência da ditadura (1964-1985) foi que assumir diretamente o governo cria exposição, gera resistência popular e passa para a história como algo pelo qual 'se fala mal até hoje, pelo menos um pouco'. A estratégia mais sofisticada, portanto, é abençoar um candidato, garantir sua eleição, mantê-lo sob influência e, se algo der errado, ele arca com a responsabilidade pública. Isso preserva a instituição militar da desgaste direto enquanto mantém seus interesses protegidos. Esse modelo é discutido em conexão com o ciclo OODA — Observar, Orientar, Decidir, Agir — como framework operacional que permite à instituição interferir na percepção pública sem aparecer como agente visível.
Ao longo de toda a conversa, Leirner recorre ao ciclo OODA — desenvolvido pelo estrategista militar americano John Boyd — como modelo explicativo central. O ciclo descreve como agentes (militares ou não) processam informação: Observar o ambiente, Orientar a percepção, Decidir a ação e Agir. Quem consegue rodar esse ciclo mais rápido que o adversário ganha vantagem. Aplicado à política e à comunicação, o OODA explica como operações de desinformação podem paralisar adversários por sobrecarga de informação ou por distorção da fase de 'orientação' — fazendo com que o adversário interprete mal a realidade. A guerra híbrida, por sua vez, é o conceito que descreve conflitos que misturam dimensões militares, econômicas, informacionais e políticas sem declaração formal de guerra. Leirner argumenta que o Brasil já está há anos dentro de um conflito desse tipo, mesmo que a maioria da população não o reconheça como tal.
O apresentador narra ter assistido a uma entrevista — que depois não conseguiu mais encontrar — de um chefe de campanha que falava abertamente sobre uma mansão usada como centro de produção de conteúdo político. A descrição é reveladora pela naturalidade com que era feita: 'a galera vem, faz vídeo, mente, mente, mente, o que colar a gente joga para os influenciadores e a coisa vai para frente'. O que chama atenção não é apenas o conteúdo, mas o tom — como se fosse uma prática totalmente legítima e corriqueira. Esse episódio exemplifica como a economia da desinformação funciona na prática: uma estrutura industrial de produção de conteúdo falso, com curadoria de narrativas testadas, distribuição via influenciadores e retroalimentação algorítmica. O apresentador conecta isso à pergunta maior sobre como esse ecossistema se relaciona com interesses militares.
O apresentador propõe uma periodização importante: até por volta de 2010, as redes sociais eram vistas como um espaço democrático e descentralizado — a 'praça pública digital'. A partir daí, e especialmente após 2014, transformam-se em espaços altamente privatizados e controlados por agentes com mais recursos para amplificação. Ele menciona a Primavera Árabe como primeiro grande laboratório de mobilização via redes, e o Gamergate como experimento de como a polarização misógina consegue fazer 'a internet atacar a internet'. Um detalhe revelador: o financiamento do Gamergate é associado a Peter Thiel, hoje ligado ao Exército americano via sua empresa Palantir. Sem aprofundar essa conexão específica, o apresentador usa-a para ilustrar como os laboratórios de manipulação de opinião em redes têm, desde o início, vínculos com estruturas militares e de inteligência.
O apresentador aponta que parte do que ocorreu no Brasil entre 2014 e 2015 foi justamente o surgimento de altas figuras do Exército Brasileiro nas redes sociais — especialmente o Twitter — condenando ou defendendo publicamente posições políticas. Esse movimento não era espontâneo: representava a entrada consciente e estratégica de uma instituição historicamente acostumada a operar nos bastidores para o espaço de formação de opinião pública digital. Combinado com o WhatsApp, o Facebook e outros canais, esse padrão começa a delinear o que Leirner chama de guerra híbrida: a mistura de instrumentos militares tradicionais com ferramentas de comunicação de massa para criar efeitos políticos sem declaração formal de conflito.
O apresentador menciona que houve um momento em que o presidente brasileiro foi gravado em circunstâncias reveladoras — um escândalo que 'explodiu' e depois sumiu da memória pública com rapidez desconcertante. Ele questiona por que esse episódio não gerou consequências duradouras e por que a repercussão foi tão efêmera. Esse padrão — escândalo intenso seguido de esquecimento rápido — é identificado como parte do funcionamento da economia da atenção: quando se produz volume suficiente de eventos e desinformação, nenhum escândalo individual consegue acumular massa crítica suficiente para gerar consequências políticas. A sobrecarga informacional funciona, portanto, como escudo. O apresentador conecta isso ao conceito de mágica: 'vou te distrair, vou orientar sua atenção pra um ponto, enquanto consigo dar o fim da história que eu queria pras outras coisas que estou mexendo'.
O apresentador menciona que a internet não foi construída de forma descentralizada por acidente ou por idealismo: foi uma decisão estratégica militar. A arquitetura de roteadores múltiplos e caminhos redundantes foi desenvolvida para garantir comunicação mesmo sob ataque nuclear — um projeto da DARPA. Esse dado histórico serve para contextualizar que a internet nunca foi um espaço neutro ou puramente civil: ela nasceu como infraestrutura militar e foi gradualmente aberta ao uso público. Compreender essa origem ajuda a entender por que militares e agências de inteligência sempre tiveram um interesse especial — e uma familiaridade técnica — com o ecossistema digital, muito antes de outros atores institucionais perceberem seu potencial político.
O apresentador relata o conteúdo de um livro — 'Messing with the Enemy', de um ex-agente do FBI — que descreve como, por volta de 2014-2015, agentes pagos trabalhavam sistematicamente em redes sociais para infiltrar e identificar células terroristas do ISIS. A metodologia era de provocação calculada: insultar os alvos, desafiar sua masculinidade e competência, até que eles caíssem no 'bait' e revelassem informações — localização, identidade, ações passadas. O livro também documenta algo importante: quando as redes sociais querem barrar um conteúdo — como recrutamento terrorista — conseguem fazê-lo. O argumento de que misoginia e racismo são 'complexos demais para filtrar' é, portanto, uma escolha, não uma limitação técnica. A conclusão do autor, dez anos antes dos eventos recentes, era que esse ambiente de 'velho oeste digital' iria empoderar agentes destrutivos sem intenção de construir nada. O apresentador usa esse exemplo para mostrar que operações psicológicas em redes sociais têm escola, método, precedente e foram financiadas por estruturas militares e de inteligência desde cedo.
Em um dos trechos mais especulativos, mas metodicamente construídos da conversa, o apresentador questiona a lógica econômica dos investimentos massivos em inteligência artificial e data centers. Empresas como OpenAI e Anthropic acumulam prejuízos multibilionários mensais, enquanto os aportes chegam às centenas de bilhões — concentrando recursos escassos como energia elétrica, água, componentes eletrônicos e talento humano. O modelo declarado para investidores é de déficit crescente até 2029-2030, quando supostamente um lucro histórico justificaria tudo. O apresentador coloca uma hipótese alternativa, referenciando conversa anterior com João Magalhães: e se esse não for um investimento civil com lógica de mercado, mas um investimento militar com lógica estratégica? O precedente histórico existe: o desenvolvimento do caça F-35 custou algo próximo de um trilhão de dólares; a corrida espacial era, em essência, uma corrida armamentista com verniz científico. Se a IA e a infraestrutura digital de dados forem pensadas como arma — de vigilância, de controle de narrativa, de operação psicológica em escala — então o investimento faz sentido, mesmo sem retorno financeiro convencional.
O apresentador pede a Leirner um diagnóstico do momento presente brasileiro. A conversa ocorre em 2026, ano eleitoral, sem candidatos ainda definidos no momento da gravação. O quadro que emerge é preocupante: a maioria das estruturas que viabilizaram o envolvimento militar na política permanece intacta. As condenações de 2026, embora historicamente significativas, atingiram poucos indivíduos em relação à extensão do problema. Leirner aponta que o grosso de quem operou essas redes ainda mantém suas posições, seus recursos e suas conexões. O desafio para o cidadão comum não é apenas escolher um candidato, mas compreender que o campo em que se dará a disputa eleitoral já está parcialmente moldado por atores com muito mais recursos informacionais, tecnológicos e estratégicos do que qualquer partido político convencional.
O apresentador pede a Leirner que ofereça orientações para quem quer usar seu voto para fortalecer a democracia e enfraquecer a influência militar indevida — deixando claro que não se trata de enfraquecer as Forças Armadas enquanto instituição de defesa externa, mas de reduzir sua interferência na política interna. Leirner não oferece uma lista de candidatos, mas um conjunto de critérios e atitudes: desconfiar de narrativas que constroem inimigos domésticos como ameaças existenciais; observar quais candidatos têm vínculos com estruturas militares ou paramilitares; valorizar instituições de ciência, saúde e direito como contraforças legítimas; e resistir à militarização do pensamento cotidiano — a tendência de ver o mundo em termos de amigo/inimigo, segurança/ameaça, que a vivência em sociedades violentas como a brasileira já impõe naturalmente.
O apresentador faz uma reflexão pessoal sobre como viver em um país marcado pela violência urbana — onde o conflito não é entre exércitos, mas entre cidadãos e a insegurança pública — já produz uma militarização do pensamento no dia a dia. A forma como as pessoas se movem pela cidade, as rotas que escolhem, os horários que evitam, as comunidades que se fecham: tudo isso é uma resposta a um estado permanente de alerta que não é muito diferente, em termos cognitivos, do que um estado de guerra produz. Essa militarização cotidiana cria um terreno fértil para narrativas de ordem, segurança e autoridade — e é explorada conscientemente por atores políticos e militares que sabem que populações com alto nível de ansiedade tendem a aceitar mais facilmente restrições de liberdade em troca de promessas de proteção.
Ao final, o apresentador pede a Leirner referências bibliográficas para aprofundamento dos temas discutidos. Leirner menciona o trabalho de Roberto Gonzalez sobre startups como estratégia militar, o RAND Corporation e suas pesquisas sobre Network War, além de sua própria obra 'O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida', cujo título — o apresentador nota — faz muito mais sentido depois de toda a conversa. O apresentador encerra expressando que saiu da conversa 'recolhendo o queixo do chão', não porque não esperasse envolvimento militar na política, mas porque não estava preparado para a profundidade das camadas, o grau de metodização das operações e o alcance temporal de tudo que foi descrito. O convite ao ouvinte é claro: inscrever-se no canal, buscar as referências mencionadas e continuar se informando — porque desinformação funciona exatamente quando as pessoas param de procurar.
O apresentador encerra a conversa expressando um desapontamento específico: as condenações de 2026 punem os envolvidos em tentativas de golpe e atentados à democracia, mas não tocam no que ele considera um crime ainda maior — a gestão da pandemia. Ele estima, baseado em dados mencionados ao longo do episódio, que entre duzentas mil e meio milhão de mortes adicionais podem ser atribuídas apenas ao atraso proposital na aquisição e distribuição de vacinas — documentado, demonstrado, com os responsáveis se recusando a responder e tentando ao mesmo tempo desviar o fornecimento para o setor privado com margens de lucro extraordinárias. O fato de que isso não foi julgado — de que as mesmas pessoas que orquestraram a resposta caótica à pandemia permanecem sem responsabilização criminal — é, para o apresentador, a maior lacuna do processo que se está vendo em 2026. Esse ponto final da conversa não é apenas uma conclusão: é uma denúncia estruturada de que a justiça aplicada foi seletiva e insuficiente.
Pontos-chave
- •• O envolvimento militar na política brasileira é histórico, mas ganhou dimensão inédita com redes sociais e operações psicológicas digitais.
- •• A estratégia atual prefere apoiar e controlar candidatos eleitos em vez de assumir diretamente o governo, minimizando exposição e responsabilidade.
- •• O ciclo OODA (Observar, Orientar, Decidir, Agir) e conceitos de guerra híbrida são aplicados como ferramentas de influência política e de opinião pública.
Entre para ler o resumo completo
Cadastre-se grátis para ler o resumo completoResumo gerado pela Minerva a partir do vídeo público. É criador do conteúdo? Peça a remoção.